já acabou, Jéssica?

Era grande a expectativa da nova série original do Netflix sobre Jessica Jones. Diferente do Daredevil (Demolidor) – com quem divide os criadores da série e o mesmo universo/bairro de nova Iorque -, nossa nova heroína não é muito conhecida pelo público brasileiro, e me incluo  na lista de pessoas que pouco conheciam sobre a personagem antes da série.

Mantendo a tendência desta fase da Marvel, o ponto alto estão nas referências. Nelas, sabemos que heróis como os Vingadores zelam pelo universo, o Demolidor combate o crime e, diante disto, Jessica vai enfrentar seus próprios demônios com um vilão singular. Este, por sinal, é uma das mais gratas surpresas da série, já que transformar um Doctor Who (David Tennant) em psicopata é no mínimo cruel com nosso inconsciente nerd.

Mas esqueça todos os moldes clichês de super-heróis que a Marvel se acostumou a fazer de suas histórias. Assim como Demolidor, estamos lidando com um roteiro pensado estrategicamente para ser mais profundo do que os Vingadores de Hollywood. E se o Demolidor surpreendeu com a narrativa de como um homem se torna o Rei do Crime – prerrogativa mais interessante que a do próprio herói -, Jessicca Jones, como bem observado neste texto no BitchPop Blog, é muito mais sobre o abuso do que sobre superpoderes.

Jessica x Machismo

Num passado recente, Jessica sofreu abuso por parte do ex-namorado e supervilão Kilgrave (Purple Man nos quadrinhos), que pode controlar mentes. Seus poderes de nada adiantaram perante o charme e domínio de Kilgrave, e embora este seja um poder, quantos de nós não conhecemos pessoas com habilidades parecidas? Em um mundo real em que quase 40% dos assassinatos de mulheres no mundo são cometidos pelo parceiro, nada melhor do que discutir a misoginia e machismo nesta primavera feminista do que uma série pop.

A relação abusiva entre Kilgrave e Jessica e o desejo de vingança pelo psicopata é prova definitiva que esta não é uma heroína infantil, visível já no primeiro episódio. Mas com grande parte do público adolescente, é gratificante ver colocadas imposições como culpabilização da vítima, num mundo em quase um terço (30%) das mulheres que vivem uma relação conjugal dizem ter sofrido violências físicas e/ou sexuais vindas do parceiro, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) em pesquisa de 2015. Trazendo a violência contra a mulheres, os autores vão além do ‘arroz-com-feijão’ do fantástico mundo dos super-heróis e do egocentrismo dominante nos complexos dos personagens de Stan Lee. Quando uma mulher em cada três é vítima de violência no mundo – geralmente provocada pelo parceiro – o problema se torna muito mais estrutural e universal. E é nesse sentido que vai ter Jessica Jones, sim.

Neste ponto, ressalto a maestria na construção desta personagem apaixonante. Ao encantar jovens e adultos, Jessica é representação perfeita dos introspectivos, com problemas interpessoais de socialização e reprimidos, ou seja, nerds. Ela é tudo o que nós geeks queremos ser: sexy, autossuficiente, poderosa e sua fraqueza, revelada logo no segundo episódio, é “se importar” com os demais. E logo eu, que nem achava a atriz [Krysten Ritter] tão mulherão para interpretar Jessica, me sinto intensamente atraída à personagem. 

Outros personagens

Seguindo o recente meme brasileiro do “Já acabou, Jéssica?” e correndo o risco de ser vulgar, levamos uma surra de tanta qualidade técnica e emocional. E deixando um pouco de lado os dois personagens protagonistas, elogio também os gêmeos, o Malcolm ou sempre incrível Trinity (Carrie-Anne Moss, que na série se chama Jeri Hogarth, mas que pra mim sempre vai ser a Trinity de Matrix). Como boa antissocial, não morro de amores pela Trish Walker, mas vou me ater a Luke Cage.

O pouco que pesquisei sobre este personagem (e já tive uma enxurrada de spoilers pela curiosidade), o futuro líder dos Thunderbolts merece muito a nossa atenção. Não é que acho que ele merece uma série para chamar de sua [ele está até bem aonde está], mas será que só eu encarei o personagem uma re-leitura de John Henry? Pelo menos foi esta minha primeira associação ao conhecer o personagem. Explico: caso não conheça a lenda, ‘John Henry, the Steel Man’ seria um ex-escravo com super-força divina, com bom coração mas com espírito totalmente de boas (um excelente curta-metragem da Disney, procurem).

Com uma história tão incrível, Luke Cage vai além do personagem muleta, que serve apenas para a protagonista brilhar. Ele traz consigo a diversidade da escola Shonda* de casais interraciais que não debatem a questão diretamente e, ao mesmo tempo, causam aquele estranhamento aos olhos que é delicioso de ver quando se trabalha o tema. Daqui, torço para um final de temporada melhor para eles do que do Demolidor – afinal, ainda não superei que Matt não ficar com a Claire. Enfim, um casal desajustado com superpoderes num mundo caótico, cuja sexualidade transcende (mais que isso vira spoiler).

De toda forma esta resenha é mais para dizer que  Jessica Jones merece mais de uma maratona ‘pipoca+sofá+Netflix’ e, embora seja cedo para julgar melhor ou pior que outra destas séries, é com certeza a mais feminista de todas. Por isso, tem avaliação de cinco corações de muito amor.

♥ ♥ ♥ ♥ ♥

 

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