resposta a um comentário (continuando sobre o Maurício de Sousa)

De longe, o post mais visto até agora do blog foi sobre Maurício de Sousa. Nenhuma surpresa, afinal,  nostalgia vende – e Turma da Mônica é pura saudade. Por outro lado, o mesmo texto foi acusado (justamente) de ser simplista quando não simplório ao tentar explicar de sensorialmente porque não gosto de Maurício de Sousa. Vou tentar ser mais pragmática (e por isso senta que lá vem textão).

A crítica colocada ao texto questionava a validade jornalística e construtiva da narração. De fato, me prendi mais à linguagem e tamanho do texto, e acredito que eu talvez tenha aberto cedo demais este blog ao público.Além dos erros gramaticais, acabo incluindo também uns de conjutura e cognição, afinal, a desordem do meu fluxo de pensamento muitas vezes atrapalha. Mas tudo isso não é desculpa, sinto muito pelos erros passados e me liberto de um compromisso anti-textão. Primeiro porque  é uma grata surpresa descobrir que sou lida não somente por familiares e amigos, mas por alguém que se interessa pelo tema. Neste mundo digital em que todos tem voz, estamos entre textos vazios e Eliane Brum. O meio-termo é mutável e invisível, e medir o grau de entusiasmos de quem está do outro lado é algo a ser estudado.

Assim, peço desculpas pelos erros. Chego a reler 4 ou 5 vezes à procura de um resultado que me deixe mais satisfeita, e por vezes a pluralidade de minhas emoções com o que assunto acabam se sobressaindo ao meu lado jornalista. Quanto ao Maurício de Sousa, sinto que meus argumentos podem ser encarados como vazios principalmente por partir de impressões pessoais, e por mais que este seja um blog de ensaios, não justifica a ausência de argumentos pontuais quando questiono o caráter do desenhista. Acabo partindo do pressuposto que todos entendem a mensagem que quero passar, e isso nem sempre se torna verdade.

Para entender esta questão, dispenço-me da obrigação de comparar academicamente as diferenças de plataformas para as quais a Turma da Mônica migrou. Faço uma análise em cima dos quadrinhos, até pelo raciocínio de que é o objeto estudado por este blog e porque meu objetivo final é o estímulo à leitura, o que não acontece nas animações. Me valho do filósofo Roland Barths para justificar que o que trago é uma degustação da semiologia, cujo “o objetivo da pesquisa [semiológica] é reconstituir os sistemas de significação diversos da língua.”

Aproveitando a  deixa sobre significação, o que critico na Sousa produções é a mercantilização EXCESSIVA da infância de que se valeu Maurício de Sousa.  Não questiono ele querer viver da arte, o que é justo e necessário, mas sim fazer da arte uma grande indústria do “eu tenho você não tem”. É neste ponto do diálogo em que aparece o império Disney para comparação, afinal, Maurício de Sousa estaria apenas replicando esse modelo. Mas eu não acredito que isso seja benéfico para o principal alvo deste sistema: as crianças. Não considero algo monstruoso, apenas não acho que o excesso de publicidade e mercadorias vendidas com o título de Turma da Mônica ou qualquer outra franquia seja saudável para mentes incapazes de discernir entre necessidades e o mercado financeiro.

Já que comparamos com a Disney, vale lembrar também que o universo criado nos gibis da Disney é muito maior. Por fazer parte de uma ideia de doutrinação (e novamente coloco que não necessariamente seja uma coisa boa para as crianças), os quadrinhos da Turma de Mickey Mouse sempre procuram abordar ambientes universais, que ora podem estar ambientalizadas na selva brasileira, no deserto árabe ou na dinâmica da cidade. Já a Turma da Mônica traz uma regionalização do país presa a uma rua ou dentro de casa, mas sem incluir diversidade e especificidades do povo brasileiro, o que poderia fazer de forma competente.

mauricio_de_sousa-_polemicaCom emoções simplórias e linguagem barata, as histórias de Sousa refletem uma geração ultrapassada, e Sousa já sabe disso a tempo. Por isso se agarra com todas as forças marketing infantil, chegando a defender de forma antiquada e desesperada o
como fez no ano passado, sob a ameaça de que seriam proibidas as propagandas televisivas infantis. O problema aqui não é ganhar dinheiro com a obra, mas explorar as mentes frágeis do “querer”, tal como o cartaz publicado no instagram do mesmo. Não quero tirar o direito de compra das crianças ou fazer Maurício de Sousa falir (embora o ache impossível isto acontecer). Mas tirar a publicidade infantil é contribuir para uma mente mais humilde e sã a longo prazo, a ponto de formar adultos mais descentes do que os nossos.

A crítica social  – ou melhor, a ausência dela –  também me incomoda em Maurício de Sousa. A política é propositalmente negligenciada, tal como a complexidade pessoal da identidade das crianças, eternamente presas ao imaginário. Inserindo a Turma da Mônica no contexto político, não importa se lemos os gibis na ditadura ou hoje, todos os personagens são alienados, enquanto todos os personagens Disney são políticos  – e aqui não importa se são propagandas capitalistas, mas sim seu poder de colocar uma pauta. Sinceramente, você sabe no que os pais de qualquer personagem trabalham? Qual o papel da mulher naquela sociedade? E do negro?TM2

Não estou tirando polêmicas da cartola: outros autores infantis, como Ziraldo, exploraram melhor estas questões, mas Maurício optou por se omitir propositalmente. Seu nacionalismo me faz supor (e aqui é só um achismo mesmo) que até usou a ditadura a seu favor. Afinal, por que Maurício de Sousa foi o único artista que não teve nenhuma história censurada? O próprio selo verde e amarelo na capa das revistas em q
uadrinhos na década de 1960 podem ser consideradas uma linha política? Se sim, isto não desconstrói seu discurso de apolítico? E, se realmente fazia parte de uma lista negra da ditadura, muito estranho que o mesmo conseguisse já ter consolidado um império como o tinha no final da década de 1980.

TMÉ claro que Maurício de Sousa também não pode ser considerado desumano. Como disse no texto anterior, eu realmente gosto da
Turma da Mônica, e ele tem se redimido por muitas de suas ações. Sobre a foto da menina com o cartaz, por exemplo, ele pediu desculpas publicamente após alguns fãs reclamarem da atitude dele. [Apenas] este ano os estúdios passaram a assinar cada história com o nome dos verdadeiros desenhistas, pois, a
pesar de os nomes sempre estarem presentes nos expedientes das publicações, a ausência dos créditos de roteirista, desenhista e arte-finalista era uma das mais duras críticas a Mauricio de Sousa, principalmente por parte dos artistas.

Por fim, minha última bronca com Maurício de Sousa  é a mais pessoal de todas: confinar Mônica, a filha real, em uma personagem, “A Administradora de seu Legado”. Conheço bem esta situação e esta posição para saber que, mesmo a filha esteja de acordo e até seja feliz por isso, a mesma viverá a vida inteira à sombra de seu pai. E este, Maurício, é um crime pelo qual eu não te perdoo. Mas, repito, este é pessoal e intransferível, pauta para talvez outro texto e não-passível de críticas pois cada um sabe a dor e delícia de ser o que é, já diria Gal.

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