quando perspectivas condenam

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O que você vê na imagem?

Sua personalidade, identidade e narrativas as quais você nem sabia vão te guiar por esta análise, pois análoga à técnica de avaliação psicológica chamada de “teste de Rorschach” ou “teste do borrão de tinta”, este personagem de Watchmen é intrigante e fascinante e tem potencial de revelar o melhor ou o pior de você.

Escrever sobre Rorschach é lutar para não usar evidências óbvias, afinal, sua complexidade é indiscutível e digna de teses acadêmicas em diferentes ciências. Rorschach não se esconde apenas atrás de uma máscara: ele compõe diferentes personalidades e características que, juntas, fazem dele um super-herói anti-herói, o mais nobre e amoral dos vigilantes, uma alma corrompida por nós que reflete, como um espelho, nosso pior.

Não se preocupe se ainda não leu Watchmen – ou se leu e não está entendendo o texto. A intenção aqui não é dar spoiler do livro ou do filme, mas sim entender porque este personagem é tão apaixonante (pelo menos foi para mim). Atualmente aceito até a ideia de que é meu maior ídolo criado por Alan Moore.

Pessoalmente, vejo morcegos nas manchas que coloquei acima, mas não creio que exista um batman dentro de mim. Sou Rorschach por definição, uma natureza morta cujos anjos decaídos servem de adubo para tentar fertilizar algo que tem esperanças de nascer. As manchas de tinta simétricas refletidas nesta imagem me fazem ver um Rorschach que aparentemente só eu enxergo, ou pelo menos é isso que quero imaginar, um Rorschach somente meu. Ele, mais do que qualquer outra pessoa neste mundo, merece um abraço. Porque todo mundo merece um abraço. Porque eu mereço um abraço.

A depressão que [me] corrói as entranhas da cidade é a mesma daqueles que tem fôlego para ler os jornais diariamente, transformando-se em uma névoa por cima da realidade sombria das ruas por onde ando. Se o quadro representa a dinâmica psicológica do indivíduo, empreender-se em entender Rorschach faz parte da transição debutante de uma vida: escolher entre encarar a vida ou esconder-se pelas redes sociais.  

É simplista julgar o personagem como apenas caótico e mau-humorado quando em tantas esferas ele apenas reflete de forma projetiva um mundo e seu tempo. Ao ler Watchmen diante da crise política, econômica e moral atual, compartilho de um cenário muito parecido, num exercício de autoexpressão de visualizar os sinais de sangue das ruas de Nova Iorque como os fluído de jovens pretos e periféricos de São Paulo.

Como exame crítico, o teste de Rorschach é amplamente utilizado em vários países desde 1921, quando desenvolvido pelo psiquiatra suíço Hermann Rorschach. Quanto mais nos agarramos a esta ideia, mais fácil entender como a complexidade de Rorschach se constrói diferente dos outros. O mais humano dentre eles, sua insanidade assusta e o coloca ao lado do Comediante em termos narrativos, mas conforme o tempo passa, mais e mais esta afirmação se torna obsoleta até o final, o mais enigmático de todos, quando ficamos consternados ao descobrir a nobreza e pureza daquele que coloca como último dos moicanos.

Sem mais, creio que a imagem e o personagem, tautócronos, desafiam o leitor como uma esfinge: DECIFRA-ME OU TE DEVORO.

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