V (ou porque toda garota se apaixona por Vendetta)

Somente agora terminei de ler V de Vendetta. Assisti o filme antes (guilty), o que me tirou um pouco da experiência da surpresa. Mas tendo cada plataforma sua solução merecidamente genial para o roteiro, é preciso admitir que, como garota de esquerda, estou apaixonada moralmente e empaticamente com as personagens no que se refere à uma sociedade corrompida.

Aqui, não traduzo o Vendetta, pois a sonoridade se compromete e é sumariamente importante para o roteiro e diálogos. Também não me prendo à comparações técnicas e descenessárias de comparações entre as duas obras. O que importa para mim é como V de Vendetta é peça única, precisa e necessária. Ambas as obras são ascendentes, inspiradoras – e por que não, apocalípticas? Afinal, o ser humano, como ser cíclico como o planeta em que habita, apenas repete eras de avanço e retrocesso de moral, costume, sistema. Com os comentários que vejo no país e no mundo, acredito cada vez mais que voltaremos a viver em algo próximo à Idade das Trevas, governados desta vez por Cunhas e Trumps.

Enquanto o filme imagina uma ditadura, o quadrinho trabalha com a tecnologia centralizadora (Skynet?) e não um ditador um personagem como Hitler ou Trump (novamente recorro a este político para uma comparação não se faz aleatória). Não estamos falando de um sistema político, mas de adversidade ética. Em um sistema eleitoral que não involve o cidadão, tomo as palavras do sociólogo Weber emprestadas para reverberar a mensagem de V de que, mesmo em uma democracia, quando as pessoas escolhem um líder em que confiar, o eleito diz: “Agora calem a boca e me obedeçam”. De nada me vale então um líder que priva seus eleitores e partido de interferir e seus negócios e políticas. E se, já dizia Bourdieu, “Não há democracia efetiva sem um verdadeiro poder crítico”, passou da hora de pegarmos o nosso poder e responsabilidades em mãos.

Mas, acalmem-se: não precisa ir também em tudo quanto é marcha na Paulista. E neste ponto, pobre V, sinto por tanta gente usar sua máscara para defender até mesmo a volta da ditadura. Estou certa de que contarei a meus netos “e foi em 2015 que as coisas ficaram esquisitas”, porque ficaram mesmo. Reclamar o poder não é pedir demissão da presidente eleita democraticamente porque “sim”. Não é falar que todo político é corrupto. Não é pedir para explodir Brasília. Os mais esclarecidos leem estas afirmações com o ar blassê de quem diz “Isso soa rídiculo, ninguém pensa assim”, mas Deus, 2015 e pessoas estão pensando que pedir o fim da corrupção e estacionar o carro em faixa dupla não se trata de um a contradição. O inferno é os outros.

V, talvez até cumprindo um papel de messias, seria cruscificado – ou chamado de petralha – num cego entendimento de que a bela dama Justiça é queimar bandido em praça pública, mas só se ele for preto. Sua volumptuosa amante Anarquia nada mais seria do que uma Ditadura Bolivarianista. Hoje nós não precisamos do V. Nem de Vendetta. O que precisamos é de razão, racionalização, educação ou de um meteoro apocalíptico. Mas isso eu deixo pra quando eu terminar de ler Watchmen.

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