quando entrevistei uma diva

Era uma das últimas aventuras de Fernanda e Luciana. Apenas para variar, havia me perdido na cidade universitária, mas [também para variar] eu estava cerca de meia-hora adiantada. Pode chamar de TOC, responsabilidade ou mania, mas é assim que eu sou.
Chegando naquela rua, conversávamos sobre nossa entrevistada. Ainda era muito recente chamar ela de ELA. O processo de lagarta para borboleta ainda não estava completo, mas já saíbamos que ela preferia assim. Laerte ainda não era diva, mas já estávamos apaixonadas pelo artista, cujo trabalho que sempre respeitei e amei. Quando começamos a pensar o tema para nosso TCC [parecia séculos de distância naquele momento], chegamos a cogitar a vida dela, mas sabíamos que eram terrenos arenosos aqueles anos após a morte do filho.
Quando chegamos em frente a casa dela, sabíamos que tínhamos chego. A casa tinha aquela aura que parece acompanhar os artistas ou os lugares onde eles criam. Não sei se é algo que somente sensíveis enxergam (como a roupa nova do imperador), ou se é algo da minha cabeça, mas era como se a própria casa havia sido desenhada por ela.
Tocamos e ela atendeu.
Saia jeans, camiseta regata, chinelo de dedo, mexas loiras. Me lembro porque ainda não havia encontrado Laerte vestida de mulher, só havíamos “ouvido falar”. Não foi um choque, mas não vou dizer que não sentimos certo estranhamento. Principalmente porque sua namorada havia sido roubada naquela ocasião, e o reforço daquela personalidade com uma namorada confunde nossa mente conservadora, acostumada a rotular com Os e As tudo quanto é assunto.
Mas lá estávamos, eu, Luciana, Laerte. Sua ca
sa era como a maioria das que visitamos: uma bagunça organizada, uma decoração simplista, mas encantadora. Nos ofereceu um café (que de início não aceitamos), sentamos em uma mesinha com três cadeiras, todos os gravadores a postos.
Foi quando ela soltou a máxima:
“- Ai, licença, mas vou pegar um brinco. Sem brinco eu me sinto ninguém”
Elaerte subiu as escadas rumo ao adereço. Virei para Luciana, que correspondeu não só o olhar, mas também a risada. Nenhuma das duas estava de brinco. Lembro que ainda sussurei, feliz e revoltada: “Hey, pera, eu não estou de brinco e eu sou alguém”!
Laerte: mais feminina que eu e Luciana. E isso é legal pra caramba.
Porque quem vive em sua caixa não aproveita as belezas da vida. Parabéns, diva. E obrigada por divar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s